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João Gabriel Hofstatter De Lamare morreu enquanto corria meia-maratona em Porto Alegre — Foto: Reprodução/redes sociais
O caso levantou discussão sobre os sinais de exaustão extrema que o corpo emite durante atividades físicas intensas e os riscos associados ao desconhecimento. Especialistas ouvidos pelo g1 detalham esses alertas e indicam medidas preventivas.
Sinais fisiológicos de exaustão extrema
O corpo humano manifesta claros sinais de que seu limite fisiológico foi ultrapassado e que a exaustão se tornou perigosa.
Especialista em ortopedia e traumatologia pela Sociedade Brasileira, Eduardo Vasconcelos lista sintomas que não devem ser ignorados: tontura, visão turva, náuseas, calafrios, perda de coordenação motora, confusão mental, dor muscular desproporcional ao esforço, câimbras repetidas, batimentos cardíacos acelerados ou irregulares, e sensação iminente de desmaio.
“Não se pode, em hipótese alguma, ignorar esses sinais. São indicações claras de colapso.”
Médico do esporte e especialista em Medicina de Expedições e Aventura pela Wilderness and Expedition Medical Society na Inglaterra, Gabriel Ganme complementa:
“Ao entrar em estado de exaustão, a performance do indivíduo começa a cair, acompanhada de perda de força, diminuição da velocidade na corrida e queda de pressão arterial. A coordenação motora pode ser afetada, resultando em mudanças descontroladas na direção da corrida”, explica.
Com a progressão da exaustão, diz o especialista, os sintomas se intensificam, podendo haver alteração na percepção do ambiente, vertigem intensa e, em casos extremos, perda de consciência.
Diferença entre fadiga normal e exaustão perigosa
Ganme observa que os sintomas de exaustão descritos acima podem estar associados à desidratação, hipoglicemia ou queda de pressão. Ainda segundo ele, é fundamental diferenciar a fadiga advinda de um treino da exaustão que exige interrupção imediata.
A fadiga normal, explicam os especialistas, é localizada, melhora com repouso e não compromete funções cognitivas ou vitais. O indivíduo pode sentir queda de desempenho, mas permanece consciente e orientado.
“O corpo dá sinais claros de que não está apenas cansado — está em sofrimento”, afirma o médico do esporte.
Riscos imediatos e de longo prazo
Persistir no esforço diante de sinais claros de exaustão acarreta riscos significativos. Entre eles, os médicos destacam consequências imediatas:
Colapso cardiovascular.
Desidratação grave.
Hipertermia (superaquecimento do corpo).
Arritmias cardíacas.
Perda de consciência.
Morte súbita.
Rabdomiólise (destruição muscular que pode levar à falência renal, sendo um risco grave e subestimado). A rabdomiólise pode causar urina escura.
Hipoglicemia: queda acentuada dos níveis de glicose no sangue, podendo levar à perda de consciência.
Hiponatremia: ocorre com consumo excessivo de água sem reposição adequada de sódio, diluindo o sódio no sangue e podendo causar arritmias cardíacas graves e até morte.
Além desses, há os riscos a longo prazo, entre os quais os especialistas destacam:
Lesões por sobrecarga.
Alterações hormonais.
Imunossupressão.
Fadiga crônica.
Complicações cardíacas, como arritmias e fibrose miocárdica.
Danos renais relacionados à desidratação repetida e esforço extremo.
Lesões musculoesqueléticas.
Distúrbios do sono e sobrecarga mental.
O overtraining, se não identificado e tratado, pode comprometer o desempenho e a saúde a longo prazo. Atletas jovens submetidos a treinos e competições excessivas também estão sujeitos a consequências importantes em órgãos vitais.
Os especialistas afirmam que certas condições médicas podem aumentar a suscetibilidade a colapsos. Vasconcelos destaca cardiopatias, arritmias cardíacas, doenças metabólicas como diabetes, hipotireoidismo, anemia e o uso de medicamentos como hormônios análogos à testosterona.
Ganme adiciona a predisposição genética, como o tipo de fibra muscular predominante, que pode desequilibrar a exigência do esporte e o corpo do atleta.
Para identificar condições pré-existentes que podem ocasionar sintomas graves, os médicos indicam exames cruciais. “Os exames cardíacos clássicos como eletrocardiograma, teste ergométrico e ecocardiograma são imprescindíveis”, diz Vasconcelos.
O médico ortopedista recomenda, ainda, que o indivíduo se submeta a um hemograma completo, a exames hormonais, testes de esforço, anamnese e análise de composição corporal. Ergoespirometria e testes para detecção de arritmias também são importantes.
“A intolerância à glicose, uma fase pré-diabética, pode causar picos ou quedas acentuadas de açúcar no sangue, levando à hipoglicemia durante o esforço. Casos raros de intolerância ao exercício físico também existem, onde o corpo reage de forma inadequada ao esforço”, afirma o médico.
Primeiras medidas de socorro em caso de colapso
Gabriel Ganme enfatiza que, ao ocorrer um colapso, o primeiro passo é aplicar os princípios básicos de atendimento: vias aéreas, respiração e circulação (ABCs). A síncope vasovagal, um colapso comum, é frequentemente causada por queda de pressão arterial devido à desidratação, e a recuperação costuma ser rápida ao deitar o atleta e elevar as pernas dele. A reposição com líquidos, eletrólitos e carboidratos geralmente resolve o quadro.
Em caso de colapso durante uma prova ou treino, os médicos sugerem que primeiras medidas de socorro sejam tomadas.
Interromper imediatamente a atividade.
Deitar a pessoa em posição segura, preferencialmente com as pernas elevadas.
Promover resfriamento (sombra, água fria, ventilação), se a causa for hipertermia.
Se houver sinais de inconsciência, convulsões ou ausência de respiração, os especialistas sugerem iniciar manobras de reanimação, se necessário, enquanto o serviço de emergência é acionado.
Hidratação é chave para cuidado
A ausência de reposição adequada de líquidos, eletrólitos e carboidratos durante provas longas aumenta o risco de exaustão, cãibras e colapso. É fundamental que o atleta inicie a prova bem hidratado e mantenha uma ingestão periódica de líquidos e fontes de energia durante todo o esforço.
Gabriel Ganme ressalta que o maior risco está na falta de uma estratégia adequada de hidratação e nutrição, que deve ser individualizada e discutida com médico e/ou nutricionista, considerando condições clínicas preexistentes.
“Pessoas hipertensas que usam diuréticos, por exemplo, podem perder eletrólitos em excesso, e diabéticos devem monitorar a glicose. A monitorização contínua da glicose, por exemplo, pode ajudar a evitar situações de risco”, diz.
Ainda segundo os especialistas, há medidas de prevenção que podem ser executadas tanto por atletas como por organizadores de provas. Eles listam algumas:
Para atletas:
Respeitar os limites individuais.
Treinar progressivamente.
Realizar exames médicos regulares.
Manter uma rotina adequada de sono, alimentação e recuperação.
Estar muito ciente dos riscos envolvidos.
Realizar um check-up completo antes do evento.
Seguir um plano adequado de nutrição, hidratação e aclimatação.
Levar consigo itens básicos de primeiros socorros em locais remotos.
Para organizadores:
Monitorar o clima e considerar fatores climáticos ao definir o horário da prova, usando índices como o WBGT (índice de bulbo úmido termômetro de globo) para determinar necessidade de adiar ou cancelar eventos em condições extremas.
Prever pontos de hidratação regulares.
Oferecer suporte médico no percurso.
Orientar sobre os riscos e exigir avaliação médica para provas de longa duração.
Garantir a presença de equipes médicas e socorristas distribuídos ao longo do percurso, com ambulâncias e desfibriladores.
“O esporte de alto rendimento exige disciplina e responsabilidade com a própria saúde. O monitoramento periódico é fundamental para preservar a longevidade esportiva e a saúde geral do atleta”, diz Vasconcelos.
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